quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Tempos de Paz

Um achado!

Filme maravilhoso, concordo com a crítica que a iluminação é meio precária. Mas no resto discordo de tudo. Não vi a peça e talvez seja por isso, porém não consigo concordar que a atuação de Tony Ramos não tenha sido perfeita, e a de Dan Stulback, simplesmente linda.
O filme mostra com maestria um lado da história que nunca é muito abordado, o drama vivido pelos carrascos torturadores que perseguiram os comunistas e fascistas aqui no Brasil. Obviamente não é apenas disso que ele trata, porque mais uma vez é narrado os horrores das 1º e 2º Guerras Mundial, no sofrimento de Clausewitz vivido por Dan.

Após o desembarque de Clausewitz no Brasil, ele é pego na malha fina da alfândega por se dizer agricultor, mas demonstrar profundo conhecimento da lingua portuguesa e inclusive citar Carlos Drummond Andrade, o que desperta a atenção de um dos agentes do governo que o prende para maiores esclarecimentos. É onde entra em cena Segismundo, personagem de Tony. Um agente que depois de muito anos de trabalho na polícia perseguindo e torturando os presos políticos foi transferido para a polícia da imigração. Justamente no dia em que Clausewitz desembarca no país ele recebe de seu "padrinho" e mentor das torturas, a notícia da libertação dos presos políticos, que o aconselha a se ausentar por um período para evitar represálias. Em meios a seus conflitos Segismundo, tem que interrogar o preso, e com tudo contribuindo para que o deporte, ele, faz uma proposta a Clausewitiz. Dá a ele 10 min para fazê-lo chorar, é a chance de Clausewitiz receber seu salvo conduto e permanecer no Brasil, mas é também o desafio de Sigismundo, que precisa testar sua humanidade.
Daí segue um diálogo brilhante,que culmina, na minha opinião, na parte mais linda do filme. O monólogo brilhantemente interpretado pelo ator-agricultor Clausewitiz.
O monólogo, segundo o que verifiquei pela net é parte de uma peça escrita em 1663 por Calderón de La Barca, A vida é sonho, que estou lendo no momento e que recomendo por ser simplesmente linda.
Segue abaixo o trecho a que me refiro, para que apreciem e sirva de estimulo a leitura da peça, que eu recomendo tal como ao filme, Tempos de Paz.

Monólogo do filme Tempos de Paz!

Ai mísero de mim!Ai, infeliz!
Descobrir óh Deus pretendo,já que me tratas assim,
que delito cometi fatal, contra ti, nascendo.
Mas eu nasci, e compreendo
que o crime foi cometido
pois o delito maior do homem é ter nascido.
Só queria saber se em mais algo te onfendi
para me castigares mais.
Não nasceram os demais?
Então, se os outros nasceram
que privilégios tiveram
que eu não tive jamais?
Nasce o pássaro dourado,
jóia de tanta beleza
e é flor de pluma e riqueza
ou bem ramalhete alado
quando o céu desanuviado
corta com velocidade
negando-se a piedade
do ninho que deixa em calma:
e por que tendo mais alma
tenho menos liberdade?
Nasce a fera e muito cedo
e humana necessidade
ensina-lhe a crueldade,
monstro de seu labirinto;
e, eu com melhor instinto
tenho menos liberdade?
Nasce o peixe e não respira,
aborto de ovas e lama,
é apenas barco de escamas,
quando nas ondas se mira
e por toda parte gira
medindo a imensidade
de sua capacidade;
Tanto lhe dá sul ou norte.
E eu que sei da minha sorte
tenho menos liberdade?
Nasce o regato, serpente
que entre flores se desata
e como cobra de prata
entre flores se distende
celebrando a majestade
do campo aberto à fugida.
Por que eu, tendo mais vida
tenho menos liberdade?
Em chegando esta paixão,
num vulcão todo transfeito,
quisera arrancar do peito
pedaços do coração;
que lei, justiça ou razão
recusar aos homens sabe
privilégio tão suave
licença tão essencial,
dada por Deus ao cristal,
a um peixe,a um bruto,e a uma ave?

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